6.11.09

Carta a um irmão distante.

Deveria pensar que se está tudo vazio tem bastante espaço ainda para encher. Deve ser chato estar cheio e pleno, mas nossa avó já me dizia que saco vazio não pára em pé. Acho que vou sumir por inteiro, procurar por uma bruxa dessas da Barra e ver se ela me desaparece por uns dias, e que, nesses dias, não aja a necessidade de dormir, nem de se cansar, nem de tudo isso que estou sentindo. Talvez volte a escrever poesia de beira-de-estrada, seja um homem de passagem, de acaso e de fuga. Parece bobagem, mas se tu soubesse o que é passar noites inteiras em pânico, talvez preferirias um infarto fulminante de verdade e não esses que fingem me dar a cada cinco minutos. E ainda tem o amor que sinto por uma bela garota: meu irmão, se tu tivesse idéia do quanto ela é linda! Mas comigo as coisas acontecem assim, no empurra-empurra, na beira-do-abismo, no tum-tum do coração. Ainda assim continuo encolhendo a barriga, passando de fininho e levando como dá. Como naquela época em que passava as tardes de calor na casinha de madeira, pensando poesia, ouvindo No code e reformando o livro do Neruda. Tu entendes isso? Acho que sim... deve ser da mesma maneira pra todo mundo, enquanto segue a barcarola... [passagem de tempo. Passagem de tempo?]. Amanhã antes de partir nessa minha busca por uma poção mágica que conecte ruas distantes, vou colocar um anuncio no jornal: procura-se alguém mais forte do que eu que possa com sua ignorância me confortar. Não precisa nem saber falar, basta saber me olhar e me dar valor. Não sou tão caro, até acho que geralmente minha moral consiste num prato de peixe frito. É meu irmão, sei o que estás pensando: que cara carente! Mas não, até que sei me virar, cozinho, lavo minha roupa, converso com os adultos e nem tenho um dicionário de sinônimos: quase tudo eu mesmo quem invento, “só dez por cento é mentira”. As vezes parece que estou meio possuído. É quando as palavras me fogem do controle, não que eu tenha a pretensão de forjar um novo dicionário, mas dar um novo uso, sem querer, as palavras mais simples, como se o sentido só sentisse quando não sentem. A partir daí esclareço que nem sei o que estou falando e é tão divino que esqueço de me lembrar que estou confuso e ansioso [acabei de me lembrar!]. Não é louco? Consigo passar de insônia come-cabeça para insônia nem-percebo-que-não-durmo. Tu podes pensar que é a mesma coisa, mas minha pele tem certeza que não. Tá chegando a minha hora, quem sabe amanhã eu te encontro, senão nos vemos no verão. Tu sabes que por aqui as coisas são assim: saudades, árvores e adeus. Já comprei minha barraca, vou acampar no meu peito, aqui não dá mais pra ficar...

Sem comentários: